8 de dezembro de 2011

Um mundo Azul Dourado



Lá bem no alto seguia-me um movimento puro e suave. Embrenhei-me discretamente por entre as outras estrelas, observando.
Imponente a águia, de asas bem abertas, mostrava a grandeza dos seus actos e a beleza do seu azul. As suas atitudes eram louváveis.
Mas, o dourado me fez brilhar mais forte e sem querer, sobressaí-me do prateado das outras estrelas.
Não me permitiu esconder mais. Rendida, ousei sentir a companhia desta imponente águia e com ela acolheu-me a sonhadora ideia de juntar nossas forças e lutar por um mundo melhor.
Os bem-aventurados valores de que te reges me alegram. Da tua imensa bondade e caridade, busco a força de me despertar ainda mais. Os meus desejos junto de ti se fortalecem.
Sinto que a cada dia temos que ser cada vez mais fortes. Mas tu já espelhas uma natureza robusta e corajosa que, aliada à vontade de partilhar toda a energia que transporto comigo, numa comum parceria, elevaremos este mundo a um extenso universo de luz e paz.
Quero viajar na fortaleza das tuas asas e oferecer a cada ser uma estrela de esperança, para que todos possamos acreditar com as garras da fé.
Cá de cima do pedestal e com a ampla visão do que se passa com os terrestres, podemos concertar todas as carências pessoais e sociais.
De dia cuidas deles mostrando-lhes o caminho certo e impedindo-os de se embaterem em atropelos vãos.
Já na quietude da noite, com toda a delicadeza eu entro-lhes alma adentro e curo as maleitas da era moderna com o xarope da certeza, de que em cada despertar, um novo dia amanheça repleto de luz, as nuvens dancem e o mundo sorria.
Vamos antes de mais avivar nas mentes humanas o brasão dos bons actos. Recreemos uma nova sociedade despoluída da febre da ascensão ao poder exacerbado e totalmente desvinculada de actos terroristas.
Criemos postos de trabalho para Toda a população saudável, independentemente da sua idade, ajustando as horas diárias à capacidade de cada um.
Encerremos alguns os lares meramente produtores de fortunas e criemos novos serviços de empregadas privadas a cuidar dos nossos idosos nas suas próprias casas junto às famílias.
Deixemos de lado o individualismo e a solidão e criemos grandes comunidades de apoio social onde prevaleça a caridade e a divisão de bens em igualdade.
Cuidemos do nosso planeta. È urgente destruir o lado lucrativo em benefício de contrair grandes fortunas. Em pleno século XXI com o avanço da tecnologia, há que criar novas condições de sobrevivência sem a destruição na nossa Maior habitação: O nosso planeta.
Vamos impedir que haja fome, nem física nem cerebral. Que não haja carência nem de alimentos, nem de amor e que a justiça triunfe.
É inadiável recrearmos um novo conceito de família. Me questiono se é necessário viver uma brutal crise de valores, para regredir até àqueles anos longínquos em que as famílias mesmo pobres eram abençoadas de amor e união.
Porque afinal se as pessoas nasceram para se amarem e as coisas para se utilizarem, porque é que se amam as coisas e usam-se as pessoas?
Águia amiga, tu que já fizeste tanto pela sociedade, ingressa comigo nesta batalha. Não para sermos uns heróis, mas para despertarmos nos nossos irmãos o lado bom que transborda submisso dentro deles á espera dum impulso.

7 de dezembro de 2011

Fragrâncias da Insonia



Oh sono tranquilo que te foste embora para gozares da beleza desta noite de lua cheia e me deixaste só no quarto escuro.
Os teus planos foram em vão, porque nem a insónia me tomou nos braços. Fiquei à deriva neste imenso oceano de lençóis já amarrotados pela turbulência dos meus pensamentos.
Deixei-me arrastar nas ondas submersas de ideias baralhadas, à espera de pegar na extremidade do fio e iniciar uma nova meada, livre de nós e emaranhados.
Encontrei-a disfarçada de dobra do lençol, aninhei-me lentamente como se quisesse entrar no paraíso do tamanho abaixo do meu volume corporal.
No seu interior, acariciou-me a quietude das palavras vãs e das frases soltas sem sentido.
A perfeição deste silêncio deixou-me livre para arrumar individualmente em cada gaveta, as palavras que já teimavam acompanhar a borboleta que esvoaçava lá fora no parapeito da janela.
Amuadas lá iam eles, devagar, os vocabulários moviam-se com ar de saia justa, como se entrassem no castigo não imaginando que o seu trono brevemente iria triunfar, dando vida a criativos textos que se desenrolavam a cada respiração.
Outras ondas queriam-me impulsionar, disfarçadas de melodias estrelares. Mas alerta, permiti-me desviar dos rochedos pontiagudos, ciente que neles podia encontrar a tempestade mais difusa de mim. Preferi deixá-los inertes no seu canto, à espera que o embalo do próprio processo da vida os acalmasse sem necessidade de qualquer tipo de competição.
Finalmente tranquila e perfeitamente convicta, elejo os trilhos da minha insónia degustando o espontâneo dom criador, permitindo que as ideias brotem livres no seu percurso.
Porque esta sim, é uma salutar viagem que permite estar confortavelmente em paz comigo própria.

29 de novembro de 2011

Vou-me embora



Esbravejo sentidos desabafos do acúmulo de anos muda na quietude do meu querer.
O chá amargo das dispensáveis visitas, estatelaram-me na já calejada poltrona a sorver uma assembleia de discussões abafada pela melodia da chávena a bailar no pires.
Embalos gélidos de relações que sufocam por “Constelações Familiares” com o intuito de descortinarem a origem dos problemas e a confluírem na amorosa harmonia familiar.
O deserto de diálogos incompletos, escavam buracos de palavras famintas de liberdade a massajar lábios de esperança.
Lamentáveis rumorejos ligam-se em cadeia formando uma teia de “ jogos de cintura”, disfarçados de açucarados vocabulários.
Arestas de copos partidos por actos discriminativos, me quebram e me rasgam toda coração adentro sorvendo a borra amarga de uma vida imperfeita onde já nem o aroma a café motiva ao enérgico despertar rumo a um novo dia de trabalho.
Os ouvidos, esses já rugosos de tantas mentiras, suplicam por um novo e totalmente remodelado banco de jardim, que me permita sentar confortavelmente sobre as inocentes conversas de rua, embelezadas pelo perfume das flores.
Consecutivos finais do mês, transformados em lagos secos onde já nem a mísera moeda lhe permite pedir o desejo da merecida remuneração de dias e dias de trabalho.
Fartei-me de tudo, até do cão, do gato e do canário trilhados de sábias naturezas, tentam me alegrar infrutiferamente com os seus divertidos dotes.
Cansada e totalmente esgotada do sorriso preso por molas no estendal a aguardar que o sol o alimente e o mostre a todos, desvendo o grande segredo escondido por trás de gargalhadas eufóricas e de palavras de alento oferecidas carinhosamente a quem prezo de verdade.
Mas desta vez, basta!
Vou fugir para aquele canto disfarçado de quarto que eu tanto sonhava ter só para mim.
Me recolho ao aconchego do meu mundo de brincadeiras sem me preocupar se vivo ou se simplesmente hiberno. Porque uma certeza se me afigura: Nesta estranha transparência ninguém ousa me desprezar nem humilhar.
E assim, protegida por mim, volto à essência de menina feliz do meu jeito e exemplar aos olhos de quem permito contemplar-me.

23 de novembro de 2011

Cada vida um contrato de aluguer


Tenho a impressão que aluguei uma parte deste mundo para mim.         
Sou hóspede dele enquanto as batidas do meu coração paralisarem o relógio que pulsa segundos.
Alguns parecem saltar em branco, como se sustessem a respiração de tanto quererem escutar as vozes silenciosas dos pensamentos de quem me cruzo.
Um burburinho de nadas, de vagueantes que talvez gratifiquem o aluguer aqui na Terra com o trabalho de suas mãos a aquecerem o fundo dos bolsos.
Outros, estou certa, que abrem as carteiras e trocam o maço de notas do trabalho concluído no escritório após saírem a altas horas de regresso a casa, convictos que recompensaram o tempo longe da família e dos filhos que nem repararam ter crescido.
Vidas que fogem da morte como se com ela tudo terminasse. Ou não!
Destinos, será? Quem o faz? Quem o dita?
Como o pai do meu amigo que numa milésima de segundos e após o estrondoso acidente de comboio, virou pó.
È o que nós somos! Uma vida de matéria submersa que respira enquanto pagamos o aluguer.
E será que lhe pagamos o justo valor?
Será que o relógio não nos vai pedir indemnização pelo tempo mal consumido?
Quero-me sentir em casa, sem precisar de remunerar o espaço que ocupo. Sem remorsos, pela nuvem negra das minhas indignas atitudes, esconderem a luz do sol.
Não quero viver voltada para a parede á espera de ouvir o ranger da porta a abrir-se e virar-me repentinamente, correndo lá para fora festejando a opípara liberdade dos meus olhos que já latejavam de tristeza.
Encolhida me enxergo. Reflicto no espelho de água que a chuva lavou, as dúvidas que me tomam. Tento me erguer e elevar-me à importância de me sentir gratificada e com a conta saldada por viver exemplar no mundo que me hospedou aquando cá cheguei.
 “Missão cumprida”, é a melodia que embala meu sono toda a vez que os lençóis me acolhem após mais um dia que finda.
É pois, vivendo na iminência de ser despejada a qualquer momento, que me resta cumprir o meu dever escrupulosamente e desfrutar de cada momento como se fosse o ultimo.

22 de novembro de 2011

Choro compulsivo


 
No mundo frenético em que vivemos, acolhe-nos problemas mesquinhos, embalados por pessoas como se urgisse deles a vontade de dar à vida uma morte colorida.
Problemas sérios de fome, pobreza e maus tratos, pavores que diariamente os meios de comunicação social espalham ao nosso redor, não chegam para brotar lágrimas de sangue nos corações felizes.
Porque esses ainda escavam desgraças de míseros nadas em atitudes espontâneas que seres caminhantes e imperfeitos, praticam sem maldade, a cada expiração.
São posturas como a falta de abnegação que derrubam gigantes edifícios de amor e amizade.
Um sombrio vapor faz meus olhos navegarem na angústia, por este imenso oceano de lamentações. Ergo minhas mãos directamente ao rosto na tentativa de encobrir a tristeza que jorra em lágrimas.
Necessito de mais mãos para vedar meus ouvidos e impedir de escutar a inclemência de cruéis palavras.
O que querem, o trono da vida só para eles, a liderança sobre todos, ou o mundo inteiro para o manobrar a seu belo prazer?
Quando se tocam e olham em frente com os olhos da humildade, quando usam os seus lábios para proferir palavras doces e servem-se de suas mãos para segurar quem se patenteia cair do precipício de vidas sem rédeas e sem rumo?
È verdade, sei que não sou a detentora dos bons actos e da razão, mas me esforço e sinto-me sobre a linha dessas medíocres atitudes, muitos degraus tenho ainda a subir. O topo também não é o meu objectivo, estar acima deles muito menos, apenas almejo o cume de mim própria. Ascender e deixar no degrau debaixo o meu turbulento oceano. Aquele que indiscutivelmente todos têm em maior ou menor grau.
Tenciono dar as mãos a todos e gritar em conjunto bem alto: Nos amamos e juntos batalhamos por um mundo melhor.
Esse é o lema que devia prevalecer, e não a luta pelo poder. Não à ascensão da soberania da classe social e da classe trabalhadora, não ao poder pela liderança no amor, na amizade e na família.
Na igualdade lutamos pela afeição e pela felicidade do próximo.
Nesta encarniçada guerra, competimos apenas por algo que nem sequer existe: O nosso Ego.
De que têm medo? De ficar sós? De sentirem-se desvalorizados?
Tricas, ciúmes, avarezas, derrubar o próximo, deviam ser atitudes abomináveis ao ponto de os encarcerar na cela do desamor de do ódio por eles mesmos. Só por raros momentos, para que pudessem sentir a dor que causam aos irmãos de luz.
È com imensa tristeza com que verto frias palavras. Não me conheço, não compreendo para onde foi o meu amor incondicional pela vida.
Mas é assim que ela é composta, de altos e baixos, e não podemos deitar no lixo momentos como estes. De tristeza e de profunda decepção por aqueles que disfarçados de anjos pintam nossas vidas.
Este combate é renhido, quero emanar amor e alegria, mas as teclas se agrupam e apenas me permitem narrar desamor e mágoa. Deixo-as livres, porque essas sim, são sinceras na descrição do que sinto, afinal.

18 de novembro de 2011

Peregrino sem fronteiras

Hoje logrei coragem de pegar na minha mochila e viajar sozinha pelo meu ingente mundo interior.
Como quando se decide embargar na aventura de peregrinar para um local longínquo e completamente desconhecido, é indispensável carregar tudo quanto é essencial.
Mas de nada vale atulhar a mala, o percurso será curto e o enlevo da alegria, transforma as gargalhadas da primeira paragem, nas lágrimas da dor de um corpo que se curva e não aguenta a carga.
Assim, completamente consciente que quanto mais leve for a bagagem, mais livre me sinto e emancipado caminho percorrerei. Vejo-me coagida a fazer a minuciosa escolha do que coloco dentro dela.
Eliminei todo o desconforto que o apego me trouxe e toda a dependência que criei dos outros. Esvaziei-a de preconceitos, de desamores, do desgaste dos problemas que sacudiram  as horas do tranquilo sono que minha almofada não hospedou.
Empenhada na minha selecção, recolho ao meu penetrável passado, à data da minha concepção e de onde ela surgiu. Provida de um espontâneo e bonito acto de amor entre duas criaturas, jamais consinto sepultar-me sem antes ascender ao estatuto de um ser maior.
No amor tudo começa, ele alberga tudo o que me rodeia. Alimento-o na aurora de um acordar feliz, onde agradeço ao criador todas as coisas que compõem a minha vida. Permito-lhe que cresça com a mesma grandeza que contemplo os outros e semeio-o com a convicção que é fomentando o bem-querer que o meu ser se ilumina.
No intuito de aflorar um percurso completo e perfeito, derrubo o baluarte de lamentações e ergo a fortaleza dos mais polidos sentimentos que me completam. Prezo gravar neste percurso as pegadas perfeitas resultantes de boas acções e do despertar nos outros de uma deslumbrante onda de bem-estar para que nos possibilite erguer em perfeita comunhão ao enlevo de viventes felizes e completos.
 A leveza das minhas risadas galgam os muros de problemas e ecoam no outro lado da estação a supremacia de um ser caminhante que tem um mundo a seus pés para percorrer.
E assim, de pedra em pedra, peregrino me transformei. Foi cuidando minuciosamente da maior viagem da minha vida que atingi a plenitude com o dom da verdade e do amor.

10 de novembro de 2011

Encontrei-me com a perfeição


  

De lampião na mão, deixo-me iluminar com a doçura da tua alma, encontro no teu regaço o requinte de um ser que ser manifesta integralmente exemplar.
Borbulhas de afagos se misturam com olhares profundos e diálogos perfeitos.
És tu, o outro lado do “meu eu” que me espelha o que de melhor consinto, a perfeição nua e crua.
Não me permito remexer, nessas tuas imensas entranhas, de quereres e histórias que vens esculpindo em cada alvorada.
Simplesmente porque como humano que és, imperfeições também ocupam sinuosos espaços dentro de ti, disfarçados de flocos esfumaçados. Essas irrequietas existências concedo partir junto com o sopro da tua melodiosa respiração.
Albergo-me tranquila dentro desta excelsa bolha que me transporta na mais deslumbrante viagem da minha vida e me guia até à perfeição da criação e da existência.
Desfraldo o feto que me transformei, e nuamente apenas consigo ver pureza ao meu redor. Ciente que assim que viemos ao mundo, somos o fruto da requintada criação. E quando temos a sorte de avistamos o espelho do nosso outro eu e nos reflectirmos seres esmeradamente esculpidos, ascendemos ao nosso máximo.
A beleza da mensagem que me transformas é essa, me fazes sentir irrepreensível, e eu te sinto magistral. Na amizade pura e desinteressada nos aproximamos de Deus e nos felicitamos com tudo o que nos compõem e que nos rodeia.
A sensação de paz é profunda, o calor do sentimento amoroso que nos envolve é grandioso e a felicidade completa.
Permites-me entrar no teu olhar com a mesma intensidade que entro dentro de mim e me possibilitas amar-me como sou.
Neste encontro sorvo a doce inocência que jamais deixei morrer e transformei-me por magia na sublime bola de sabão que airosamente reflecte todas as belas cores do arco-íris.
Quero-te agradecer e fazer-te notar como nobre é tua amizade que me ascende ao majestoso trono de um ser perfeito.

28 de outubro de 2011

Dentro de ti a encontrarás


Rasguei a folha do meu diário, não obstante, considerei infrutífera esta tentativa de arriscar aniquilando o forasteiro sentimento que me sorveu.
Paginei todos os recantos de mim e só me defrontei com dúvidas e questões.
Prossegui, com a expectativa de encontrar novas atitudes, perante a imponente presença dos pontos de interrogação que atropelavam cada resposta que ousava disputar, criando uma tal algazarra que não abalroei outra alternativa senão a de me render.
Borbulhava em mim a vontade extrema de aquietar minha mente renhindo as respostas imediatas a todos os porquês que encontrei no meu caminho. Mas felizmente se fez luz no momento certo e incumbi-me de cuidar desta ansiedade dando tempo ao tempo.
O grande giz da ardósia que apenas arrola respostas está delicadamente velado no mais profundo de mim e me permite nomear de focar.
Indaguei na maior percepção que podemos ter, que é eternizando-nos como seres completos e usando todos os sentidos que dispomos, que as respostas virão no tempo certo.
Não é no exterior, mas dentro de nós que decorre o maior mistério da vida. Que nos leva a caminhos de duvidas ou de certezas. Que nos transporta para o conforto ou para o sofrimento, de acordo com o processo que precisamos viver naquele exacto momento.
E agora, ainda tens dúvidas?
Ainda queres procurar o maior mestre que te redunde gratuitamente as soluções, ou já consegues repassar o impenetrável do teu ser e recitar as mais requintadas respostas que aformoseia cada linha e entrelinha do diário da tua vida?
Ciente que independentemente de te poderem alumiar à alegria imediata ou à tristeza profunda, nasceram integralmente a fim de desaguarem na ascensão de um ser que se lapida dia a dia.

24 de outubro de 2011

... e eu?


O abraço que chega na hora em que a medula já congelava da falta de afecto.
A palavra amorosa que toca ainda quente o ouvido, no momento de desespero em que o turbilhão de problemas lhe fazia sentir que nada valia a pena.
A presença notória que abraça sem gesto e aquece sem toque, que anula a expressão de expectativa, resultando a tristeza de um olhar que já não se esconde mais.
O telefone esgotado da antiguidade, toca em surdina, rompendo o silencio já carregado da poeira da solidão.
A velhinha senhora, vincada pelas irregulares rugas, suplica o afecto dos filhos e netos que a olham como um estorvo esgotante de instantes de lazer.
O doente fita ininterruptamente a porta aguardando micas visitas, solicitando já desesperado, afago às gotas de chuva que escorrem pela janela.
Desaperto os fios dos sapatos, com desconsolados pensamentos que me abotoam e me trazem à triste realidade. Recolho-me incrédula nesta amálgama de sentimentos, a destilada impotência de males que não consigo resolver e de desgostos que não se descortinam cessados.
O ombro amigo abortado de impossibilidades de cooperação, curva carregado dos seus fantasmagóricos enigmas sem alcançar soluções.
O fardo de consecutivas inquietações que se acumulam dia após dia e penetram o silencioso grito do apoio que não acerca.
Preocupações de ser, apoiar, e oferecer espontaneamente a palavra amiga que anseia ouvir. O querer ansiosamente receber o troféu da bondade, gratidão e da caridade fazem-me ecoar, e eu?
Quem se diz disponível para me ouvir, para me ajudar, para me dizer, estou aqui?
Amargos murmurinhos de vozes que se sobrepõem e repisam silêncios de palavras que não chegam mais ao meu coração. Da ajuda que suplico e do ombro amigo que perdeu o vigor para apoiar o meu mundo de problemas.
Amigos sim, mas ausentes das dificuldades que os cerca  em elevado grau e os preenche de contados segundos que os seus relógios já não disponibilizam mais para quem  manifestam conceber uma amizade sem fim.
Obrigado a todos os que se afastaram e não mais tiveram tempo de ouvir as minhas lamechas. Permitiram brotar dentro de mim todo o apoio e amor que procurava em cada ser que ascendi ao estatuto de amigo.  
Assenti descer ao meu mundo de momentos aflitivos, dor e angústia, compartilhando com todos os eu’s que avançam comigo na estrada da vida, e apregoar até ser ouvido no mais obstruso de mim: Tens inexplicavelmente dentro de ti tudo para te abraçares infinitamente com o maior estado de felicidade: A paz, o amor e a bondade!

13 de outubro de 2011

Traçando Vidas


Serpenteia uma rua repleta de gente, os ritmos, esses são extraordinariamente diferentes.
Interesso-me pela análise minuciosa de cada um. Individual sim, porque cada pessoa deve se reger por ela a e ela mesma.
Infelizmente sei que isso nem sempre acontece, as influencias nas personalidades mais frágeis, nas pessoas inconstantes, levianamente alteram comportamentos com a facilidade de um bocejo.
Continuo inerte na minha torre de controle a dissecar simplesmente. Meus olhos pintam de brandas cores a realidade enquanto os sons entram nos meus ouvidos como um sussurro. Ambos deixam-me focar em paz não criando o mínimo deslize à minha vigilância.
Aéreas pessoas deslocam-se a passos tão rápidos que dão a entender que o mundo vai acabar logo a seguir ao almoço e apenas dá tempo para deglutir o ultimo café.
Outras, por sua vez, movimentam-se tão tranquilamente, como se fossem os clientes numero um do espaço Zen mais famoso de Lisboa. A sua tranquilidade faz reflectir. Afinal esse deveria ser o passo adoptado por todas, mas o burburinho interior assim não o permite.
Os rostos, lindos e fantásticos, cada vez mais polidos e retocados, fazem acreditar que estamos perante o maior evento de moda de Paris. Deixando escapar olhares foscos despojando com eles tristezas e insatisfações.
Velhos, transparentes na miragem de muitos, também lá estão. Uns sentados no banco do jardim à espera que mais um dia das suas vidas passe rapidamente, para que as dores físicas e as dores da solidão não os consumam por dentro, como aquele copo de água que num momento de desesperada sede se engole instantaneamente.
Outros, vencedores, arrastam dolorosamente suas já estafadas pernas, apoiadas muitas vezes pela imprescindível bengala, na tentativa de reduzir o esforço de carregar os anos, os problemas e as angústias, fazendo-se notar pela forte capacidade de luta e garra. Transmitindo o quanto a vida é válida até que algo superior detenha a sua continuidade, porque enquanto a máquina cerebral assim o permita, será sempre possível encarcerar o comando de um móvel corpo físico.
Há ainda quem observe e goste de ser notado, fazendo sentir a quem por eles passa que são pessoas, com sentimentos e quereres, outros, não sei se vivem dentro da cápsula de abrigo, ou se sentem num intocável trono, prognosticam a quem esbarram, com esforço aparente, que a dimensão do seu ego é tal, aparentando querer a humilhação do próximo, forçando-os a sentirem-se objectos vazios de conteúdo, desnecessários à suas ricas vidas, recheadas do gracioso e do belo.
Somos o vento que passa aos seus olhos, não tendo a possibilidade de alterar nenhuma das paisagens que estranhos olhares vislumbram. De uma mera ilusão assim vivem, porque a vida, essa maravilhosa faculdade de conhecimentos, encarregar-se-á de lhes dar o imprescindível diploma da humildade.
Prossigo, na real viagem pela sociedade de culturas, gostos e personalidades diferentes, olhares lanço, gestos decifro, uns resplandecentes, outros enigmáticos, mas cada um me instrui. Albergo tranquila aos meus aposentos, ciente que todos têm uma missão nesta vida, Compete a cada um entender qual é a sua, e a nós, resta-nos a argúcia de seguir a nossa com mestria.

6 de outubro de 2011

Uma janela para o mundo, uma porta para a solidão


Como tantas noites, o sono se infiltrou nos lençóis macios, mas a alma ao invés do descanso na fofa almofada, caiu nas redes do infinito túnel da realidade brutal que a contaminou.
Uma solidão bordada pela transparência da companhia que se fez invisível.
A radical transformação do planeta, marcado pelas fissuras que tomaram conta da sua forma, deixaram por elas entrar um vírus, contaminando silenciosamente toda a sociedade.
Dando lugar a uma nova vida que deixou de se cobrir com as vestes da sabedoria e do encantamento, de saborear cada estrela oferecida pelo céu gratuitamente, da pintura que o pôr-do-sol regala ao olhar, e se preenche de desbotadas luzes disfarçadas de palavras, imagens e sons de horas esquecidas por trás de um impessoal monitor.
Contaminou-nos a novidade da Internet que se aproximou a passos largos, exibindo o outro lado de uma vida fácil mas totalmente descartável e assassina.
A cada dia deixamo-nos perder nas teias de algo que discretamente abre a porta para o conhecimento. Passamos a deter a ilusória sabedoria, fazendo-nos sentir os mestres desta desapiedada informação.
Um novo conceito de família se vive, o Todo é substituído pelo individualismo e pela independência. As partilhas, a união e as conversas vão-se dissolvendo e doentiamente transformadas em orvalhos de solidão.
Encontramos nela, a janela aberta para encontros e desencontros que se desenlaçam com a destreza de um piscar de olhos. As conquistas fáceis pagam-se pelo desmoronar dos amores mais profundos.
Os amigos reais ressaltam na distância do tempo perdido atrás desta luminosa janela, transformando-se em virtuais, falsificando a vontade do aconchego físico. Em momentos complicados onde o apoio se torna o balão de oxigénio para erguer vidas que rastejam e suplicam por um ombro amigo, que buscam ferozmente a palavra de apoio, findam com o silêncio a ecoar mais alto.
Criam-se à pressão amigos virtuais, abraçados pelas supérfluas partilhas repletas de novidade, alegria e prazer, onde os problemas são meramente utopia.
O saldo analisado com a minúcia necessária, leva à triste conclusão que está muito além do negativo. O lado bom, não compensa os dissabores que ela arrasta.
De que vale a sabedora se no dia-a-dia não se aplica, se o verdadeiro valor vai-se perdendo, famílias se desfazem, amigos se perdem, se momentos de lazer são sugados ….
Há que segurar nas rédeas das nossas vidas enquanto é tempo, filtrar com o rigor e a urgência necessária. Viver com a real consciência que o que é verdadeiramente valioso, quando perdido, por vezes não volta mais.
Simplesmente porque neste moderno mundo de ilusão tudo se dissipa drasticamente.

28 de setembro de 2011

Simplesmente porque nada me pertence...



Na orla violeta de um corpo, aninha-se minha alma, no leito quente deita meu coração, uma longa viagem me permite percepcionar que nada me pertence.
Deste corpo, considero-me meramente usufrutuária. Um estatuto que em nada declina o valor que tem para mim, por essa razão, e sendo ele que acolhe minhas preciosidades o afago com o mesmo carinho que exonero meu maior amigo, permitindo-me flutuar no planeta Terra.
Numa degradação física inevitável, muito há a fazer. Cantando diariamente a melodia de cuidados extremosos, em que cada pauta exulta um som único de comunhão entre o corpo, alma e espírito.
Um Ser, um canal do Universo! Uso minhas armas para dividir com os outros o melhor que tenho, enaltecendo deles a sua sublime grandeza. Porque amigos, essas pérolas do meu reino, são uma fonte inesgotável de constante felicidade quando recebidos de mãos abertas por uns e compartilhados com outros.
Uma imensa ternura social de prazer me permite sentir a pujança do amor entre todas as criaturas.
De meus bens, quando posso, irmãmente desfruto deles, convicta que é repartindo, que o regalo em possui-los é maior. Procuro promover algum desprendimento em prol de enaltecer o bem supremo que explode do “meu Eu” mais profundo, o mar de sentimentos.
Consciente que ambos são necessários, admito instalar um a um hierarquicamente no espectro luminoso do meu universo.
Uma preocupação constante de zelo com a bagagem, para que quando partir vislumbrar-se limpa de resíduos materiais, onerosa de boas acções e de bons momentos. Recheada de partilhas materiais e humanas que fazem vibrar meu coração a cada dia.

15 de setembro de 2011

Na viagem do esquecimento


Sinto-me o bilhete de avião daquela viagem magnífica a Cuba que ficou para sempre na memória. Este gravou originalmente meu nome e deixou-me secamente pendurada em corações que adoro e transplanto junto ao meu como relíquias únicas.
Sentimentos vazios guardados nos arquivos de minhas saudades, desaguando num rio de verde esquecimento, como aquele lodo que recrudesce no lago de tartarugas.
O alimento continua a permitir-lhes sobreviver, mas a alegria, essa disfarçada de nenúfares sem vida onde as flores há muito prescindiram de conceder a magnífica cor que regalava aos olhos de quem dele se aproximava, vão secando acompanhando as lembranças que se exauram a cada dia.
O frio da tristeza toma conta de mim, me cubro de camadas de esvoaçantes mantas de memórias, me permitindo dar uso ao bilhete de viagem em que me refundi.
E é assim que me divido entre o voo que minha imaginação dá asas e o deslize rastejante pelo fundo do lago.
… Mas, algo prevalece sempre em mim, uma alegria e garra que me permito sorver em cada respirar. O escuro fundo reflectido na água contrasta com a aura da luz do sol, me segurando como um pára-quedas que não me deixa embater contra a montanha de tristezas que me querem atormentar.
Esta saudade avivou-me a quebrantada memória, explodindo em mim o Danúbio do amor que prevalece, não se deixando abater de ânimo leve pela indiferença de quem valorizei e partilhei o melhor de mim.
Retalhos de uma vida que nunca se mostrou fácil, das relações de amizade e amor que ora desgastam, ora nos fortificam e permitem pôr à prova até onde residem a nobreza dos nossos sentimentos.
Onde começa e onde termina o nosso amor-próprio. Um espelho que reflecte migalhas de carinho disfarçado de doces palavras. Acreditamos com afinco, porque a beleza da vida mostra-se sempre no lado bom e é esse que ansiamos ver. Mas dias escuros nos retalham por dentro e nos conduzem à honrada realidade permitindo-nos crescer e amadurecer com solenidade.

5 de setembro de 2011

Utopia da Mudança



Bateu fortemente com a porta, entrou com ela a vontade da suprema mudança que se avizinha necessária. Limpam-se as armas poluídas do aturdimento cerebral, fazendo brilhar de novo a beleza dos canos sobrepostos.
A batalha vai começar, abeira-se dos medos que te amedrontam e rapidamente vão ser destruídos com a mesma frieza com que te desejam aniquilar.
O espaço por eles ocupado ostenta-se necessário para algo tão primordial como a vontade de se fazer sentir inteira novamente. Porque os medos desfragmentam teu corpo em minúsculas personalidades. Deambulas pela dúvida de saberes quem és e o que ambicionas. Eles pegam no comando da tua vida e querem desviar-te do túnel da maciça paz interior para um opulento labirinto. Fazendo-te acreditar que esse é o caminho certo em busca do ouro e do marfim e que o teu querer é que está equivocado.
Mas a personalidade que vens a lapidar ao longo da tua vida, te elevou ao majestoso estatuto de saberes quem és e o que queres. Onde reside o teu poder e as tuas vontades. Poder esse que não mais te deixa hibernar, olhando uma vida sem tomar as rédeas do comando.
Hoje logra o dia da tua glória que se permite eternizar. Sentes o prazer de guerrear com a pujança do valor de uma vida que só a ti te pertence.
A tua força alimentada à medida da tua perfeita convicção mostra-se ilimitada. A dificuldade de profligar as silvas de espinhosos medos, se foram, o caminho encontra-se livre e as tuas energias estão ao rubro.
Os passos a dar, vão sempre em frente sem qualquer temor, e o olhar, esse nunca se desvia para trás. Já não quer mais viver o desconforto dos quentes problemas que ilusoriamente te envolviam como necessários pela confiança que te davam, ao ponto de lhes permitires descansar na partilha da tua almofada, ouvindo-os com a máxima atenção nas longas noites de insónia.
Neste dia o novo espaço mostra-se amplo, o ontem reduziu à poeira as cinzas que o vento levou. A tua respiração passa suavemente por todo o teu corpo e com ela gritas o quão livre se sentes á mudança que presenteaste, perfeitamente consciente que é inovando que se progride da direcção de um futuro próspero.

26 de agosto de 2011

Amor encarcerado


Sinto que cavas a sepultura da tua própria felicidade a cada dia.
O amor que te abraça com as mais ternas palavras, jogas no fundo do poço, sem perceberes que com ele pedaços de ti se vão.
Esperas, sentada no parapeito da janela, olhando a encruzilhada de caminhos que tu própria esboças no diário da tua vida. Com eles procuras demonstrar o destoante e esquivo amor de dias ardentes e gélidos.
Um jogo disfarçado de vida ou uma vida jogada em cacos. Um perfeito puzlle completo sem manual de instruções que de nada serve.
A maturidade de um casal eterniza-se incapaz de ler nos olhos um do outro o espelho do fluxo das águas do amor que perpetuamente insiste em amalgamar-se.
Observo o lugar intacto daquele que te guarda no coração alegre. Mas a tua dupla personalidade sobrepõem-se a um amor que teima em dizer-se exíguo quando aos olhos de todos se declara opulento.
No leito das vossas camas, picos de distância rolam nas vossas faces de dor, transformadas na maior queda de pétalas de tristes lágrimas que partilham pelos mundos opostos.
Um sono que teima em não chegar porque o sangue corre fervente nas veias da vontade unir os corpos e os tornar um só.
Na alvorada de um novo dia acordas com a vontade de finalmente agir, aprendes a ser fiel a ti mesma e divorcias-te da outra que não te quer feliz, mas infelizmente tudo em vão.
Porque enquanto o teu ser viver em duas, o teu destino vai morrendo de cansaço de contemplar casais felizes sem dares sequer o primeiro passo. Deitas fora os abraços fortes e armas a cercadura de ferro, vivendo prisioneira na tua própria cela, crendo que assim te proteges e te felicitas com o teu amor-próprio.
Dá-te a oportunidade de sentir a delícia de passear despreocupada pelas ruas de mãos dadas com o teu grande amor. Enquanto não conseguires amostrar ao mundo a tua cara-metade, não consegues manifestar a ti própria que amas de verdade. Despe-te de todos os preconceitos que criaste para te incutires que essa não é a relação para ti.
Rasga o diploma do altruísmo e desvaloriza a posição social que não alimenta a alma e só aniquila o grandioso poder de amar. Abre o fecho eclair do teu mundo interior e completa o vazio que teimas em preencher com superficialidades de sentimentos incompletos e opostas às tuas querenças.
Entende que no amor quem decide não é a razão, mas sim o coração.